Qual o melhor modelo para a entrevista de desligamento

Profissional de RH fazendo uma entrevista de desligamento com o colaborador.

Neste artigo, mostramos como a entrevista de desligamento pode gerar aprendizados para a empresa e contribuir para a evolução da experiência dos colaboradores. Saiba mais!

A saída de um profissional pode trazer informações importantes sobre a experiência vivida dentro de uma empresa. Quando conduzida de forma estruturada, a entrevista de desligamento permite compreender os fatores que influenciaram essa decisão e identificar percepções que podem contribuir para o aprimoramento da gestão de pessoas.

Para isso, a conversa precisa ir além do registro de um motivo para a saída. A qualidade das perguntas, a forma como a escuta é conduzida e a análise dos relatos podem ajudar o RH a reconhecer padrões e encontrar oportunidades de melhoria ao longo da jornada dos colaboradores.

Mas como estruturar esse processo para que ele realmente gere informações úteis para a empresa? Para entender melhor o tema, entrevistamos Milena Buosi, gerente de Cultura, Engajamento e Inclusão da Suzano.

Escuta que transforma a saída em aprendizado

A forma como a empresa conduz a conversa com quem está saindo influencia diretamente a qualidade das informações obtidas. Para Milena, o foco deve estar em compreender o conjunto de circunstâncias envolvidas na decisão, sem transformar a entrevista de desligamento em um questionário extenso.

“Entendo que uma boa entrevista precisa gerar insights para a evolução contínua dos nossos processos. O mais importante é entender a combinação de fatores que levou à decisão, como liderança, desenvolvimento, reconhecimento, ambiente e carreira.”

A organização das respostas também permite identificar padrões ao longo do tempo. Por isso, Milena defende uma estrutura objetiva, com categorias que possibilitem acompanhar os motivos apontados pelos profissionais em diferentes períodos.

“Acredito que deve ser enxuta, com poucas perguntas bem escolhidas, e de estrutura, com motivos organizados em categorias comparáveis ao longo do tempo.”

Além dos dados que podem ser analisados, existe uma dimensão qualitativa da conversa: criar condições para que o profissional se sinta à vontade para falar sobre sua experiência.

“É necessário proporcionar um espaço de escuta genuína para que haja insumos para melhorias e evolução contínua da experiência da pessoa colaboradora.”

Principais perguntas de uma entrevista de desligamento

Para Milena, a escolha das perguntas faz diferença: algumas ajudam a compreender a decisão, enquanto outras apontam caminhos para possíveis mudanças.

“Entre as perguntas, algumas são essenciais. A primeira busca entender quais foram os principais motivadores da saída. A segunda é: ‘o que a empresa poderia ter feito de diferente para você permanecer?’. Ela leva a conversa do relato à ação.”

Ela também considera importante avaliar a percepção do profissional sobre a empresa e sua liderança direta. O cruzamento dessas respostas pode ampliar a leitura sobre a experiência de quem está deixando a organização.

“Também considero fundamental perguntar o quanto a pessoa recomendaria a empresa e o quanto recomendaria sua liderança direta para um possível cruzamento de insights mais úteis e acionáveis para a melhoria e evolução contínua.”

Há ainda perguntas que ajudam a compreender como fica a relação após o desligamento. De acordo com Milena, abrir espaço para uma manifestação final faz parte desse processo.

“Se tiver mais um espaço, sugiro a pergunta complementar que é ‘Você voltaria a trabalhar aqui?’. Mostra se a relação terminou bem. E claro, vale sempre deixar um espaço livre para uma última mensagem. Parece detalhe, mas é uma forma de encerrar o ciclo com cuidado.”

Quem conduz a conversa também faz diferença

A escolha de quem conduz a entrevista de desligamento interfere na abertura do profissional para compartilhar sua percepção. Por isso, a recomendação é que a conversa fique sob responsabilidade de alguém que não esteja diretamente envolvido na relação de gestão.

“Idealmente, alguém de RH da área especialista ou o parceiro de negócios, garantindo que esteja preparado para lidar com seus próprios vieses durante a condução. Não deve ser a liderança direta, porque a relação com a gestão é justamente um dos temas que precisamos ouvir.”

Milena ainda destaca que o momento da conversa merece atenção. “O ideal é realizá-la depois que a decisão de desligamento já estiver formalizada, mas antes do último dia, quando ainda há espaço para reflexão.”

Sinceridade depende de confiança

Para que a conversa seja produtiva, o profissional precisa perceber que existe espaço para falar sobre sua experiência sem receio de julgamentos ou justificativas. Nesse sentido, a postura de quem conduz a conversa tem papel importante na qualidade da escuta.

“A sinceridade se constrói ao longo da jornada. É importante reforçar a confidencialidade, demonstrar escuta genuína e evitar qualquer postura defensiva, sem justificar decisões da empresa, mas compreender a experiência da pessoa, deixar claro que o objetivo é identificar oportunidades a partir da escuta.”

Do relato ao diagnóstico

Reunir respostas é apenas o início. Para que a entrevista de desligamento contribua para melhorias, o RH precisa analisar as informações de forma conjunta e relacioná-las a outros momentos da jornada do profissional.

“O primeiro cuidado é olhar para padrões em vez de reagir a casos isolados. Um relato individual é um sinal. Dez relatos parecidos na mesma área, com o mesmo perfil de gestão ou no mesmo momento de carreira, são um diagnóstico.”

A análise também precisa considerar o que pode estar por trás do motivo apresentado no desligamento. Uma justificativa objetiva nem sempre representa a causa mais profunda da decisão.

“É preciso ler além do motivo declarado. É comum termos temas que surgem como razão principal, representando um motivo concreto, porém, a raiz está nas relações, na falta de reconhecimento ou de perspectiva.”

Esse acompanhamento ganha ainda mais valor quando os dados do desligamento são comparados com informações coletadas durante outras etapas da jornada, permitindo identificar sinais antes que eles resultem em novas saídas.

“Um dos aspectos mais importantes é conectar a saída com o restante da jornada. Quando relacionamos o que acontece no desligamento ao que foi medido no onboarding e nas pesquisas de engajamento, conseguimos reconhecer esses sinais nas equipes atuais. Isso é escuta contínua. A entrevista de desligamento deixa de ser só um retrato do que já aconteceu. Ela passa a ajudar a reconhecer os mesmos sinais e ajuda a evitar a próxima.”

Conclusão

A entrevista de desligamento pode ser uma ferramenta importante para transformar percepções individuais em aprendizados para a gestão de pessoas. Quando conduzida com escuta, método e análise dos padrões, ela contribui para compreender melhor a experiência dos profissionais e identificar oportunidades de melhoria.

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